O Ueno Bank chegou a ter como clientes seis em cada dez adultos paraguaios e guardava o dinheiro dos aposentados. O presidente Santiago Peña tinha sido sócio dos donos. Em quatro dias de novembro de 2026, o banco fechou e o presidente caiu e foi preso. A história em ordem, com o Banco Master ao lado.
Às 3h24 da madrugada, o Banco Central do Paraguai anuncia no X o fechamento do Ueno Bank, banco digital ligado ao presidente Santiago Peña, por falta de solvência (Agência Pública).
Ao amanhecer, as agências estão fechadas. Na porta, aposentados que recebem o benefício pelo banco. No aplicativo, cerca de 3 milhões de clientes não conseguem mexer na conta (Reuters; Infobae).
No mesmo dia, o presidente do Banco Central, que tinha dirigido a financeira que deu origem ao Ueno, renuncia, e a Promotoria manda prender oito dirigentes do banco. Na quinta-feira, Peña renuncia. Na sexta, o Senado o destitui por 44 votos e ele é preso em casa. No sábado, 7 de novembro, um juiz decreta a prisão preventiva do ex-presidente.
No Brasil, o caso ganhou um apelido: “o Master do Paraguai” (Correio Braziliense, com a BBC). Este livro conta como se chegou à madrugada de 3 de novembro e o que aconteceu nos quatro dias seguintes. Ao lado de cada momento, o que se passava com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
A história começa com uma compra de ações em 2019.
| Quem | O que foi |
|---|---|
| Santiago Peña | Economista, funcionário e diretor do Banco Central do Paraguai, ministro da Fazenda. Eleito presidente pela ANR (Partido Colorado) em abril de 2023, assumiu em agosto. Destituído em 6 de novembro de 2026 e preso. |
| Miguel Vázquez | Federico Miguel Vázquez Villasanti, 36 anos, fundador do Ueno e presidente do Grupo Vázquez, dono do banco. Chamado no Brasil de “Vorcaro paraguaio” (Portal VV8). Preso desde 3 de novembro. |
| Juan Manuel Gustale | Presidente do conselho do Ueno Bank. Preso desde 3 de novembro. |
| Carlos Carvallo Spalding | Dirigiu a Financeira Ueno até agosto de 2023, quando Peña o nomeou presidente do Banco Central. Renunciou em 3 de novembro de 2026. A Promotoria pediu a prisão preventiva dele. |
| Pedro Alliana | Vice-presidente, da ANR. Assumiu a Presidência em 6 de novembro de 2026, até agosto de 2028. |
| Horacio Cartes | Ex-presidente do Paraguai e presidente da ANR. Seu grupo político apoiou o julgamento de Peña. |
| Hugo Díaz | Diretor de investimentos do IPS, o instituto de previdência paraguaio. |
| Rafael Filizzola | Senador do PDP, de oposição, autor de denúncias sobre o dinheiro público no Ueno. |
| Humberto Otazú | Juiz de garantias de delitos econômicos que decretou a prisão preventiva de Peña. |
| ABC Color | Jornal de Assunção que publicou, desde 2025, as ligações entre Peña e o Grupo Vázquez. Peña acusou o jornal de “manipulação”. |
Em março de 2019, Santiago Peña compra 1.500 ações da série K da Credicentro, a financeira da família Vázquez, que depois viraria Ueno Holding (ABC Color). Peña tinha deixado o Ministério da Fazenda e perdido a prévia colorada de 2017.
Em abril de 2021, o Grupo Vázquez compra a Financeira El Comercio, de 1976, que seria o Ueno Bank, e a empresa de tecnologia itti (ABC Color; Correio Braziliense).
Em abril de 2023, Peña é eleito presidente. Assume em agosto e nomeia para o Banco Central Carlos Carvallo, que até então dirigia a Financeira Ueno. Críticos falam em conflito de interesses (AP). Na declaração de bens entregue à Controladoria naquele agosto, Peña lista ações da Ueno Holding (ABC Color).
Em novembro de 2023, com Carvallo no comando, o Banco Central autoriza o Ueno a operar como banco (Agência Pública). No fim do ano, o Ueno tem mais de 500 mil clientes.
Em 2024, o banco do ex-sócio do presidente vai buscar o dinheiro da previdência.
Em junho de 2024, o Ueno absorve o Visión Banco e ganha mais de 1 milhão de clientes (Correio Braziliense).
Em 29 de agosto, o conselho do IPS, o instituto de previdência, aprova a compra de até 250 bilhões de guaranis em títulos do Ueno, por sete anos, a 8% ao ano. O Itaú tinha feito a primeira oferta, em 23 de julho, melhorada depois e recusada. O diretor de investimentos, Hugo Díaz, explica que em títulos “não há nenhuma competência”: são os bancos que propõem as condições (ABC Color).
Em outubro, diante da comissão de orçamento do Congresso, o presidente do IPS e Díaz pedem “tranquilidade” aos segurados. Admitem que não podem dar 100% de garantia. Sobre a ligação do banco com Peña: “Nós não olhamos essa parte” (ABC Color). Na mesma semana, segundo a Última Hora, o presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale, diz que o banco está “se expandindo de maneira ordenada e caprichada” (Última Hora).
Em março de 2025, o nome de Peña sai da sociedade.
Em 10 de fevereiro de 2025, a Ueno Holding comunica ao Banco Central sua fusão com o Grupo Vázquez, principal acionista do banco. Em 18 de março, Peña aparece na composição acionária com 6,144 bilhões de guaranis, 1,58% do capital, o quarto maior sócio. Em 22 de março, uma assembleia reduz o capital e cancela e reembolsa as ações; ficam só dois acionistas, o Grupo Vázquez e Víctor Hugo Vázquez (ABC Color).
Em 4 de abril, Peña diz que “no fim de março” deixou a sociedade: “Me pagou por minhas ações e minha vinculação com essa sociedade, que não tem a ver com a itti nem com o banco (Ueno)”. Acusa o ABC Color de “manipulação” (ABC Color). Dias depois, diz que o grupo do jornal “adoraria me tirar” (Hoy).
Logo depois de vender, em abril de 2025, Peña compra ações do Banco Continental, que também tem dinheiro do IPS; em 2025, recebe 420 milhões de guaranis em dividendos. Um especialista ouvido pela Última Hora diz que a compra não fere a lei de conflito de interesses (Última Hora).
Em outubro de 2025, uma denúncia contra Peña refaz a trajetória dele com os Vázquez, das ações de 2019 à fusão com o Visión Banco (ABC Color). Em dezembro, o senador Rafael Filizzola (PDP) diz que, desde a posse de Peña, o Ueno acumulou US$ 734 milhões em fundos públicos e liga a colocação do dinheiro do IPS à relação do presidente com o banco (ABC Color). Dois dias depois, o IPS autoriza mais US$ 13 milhões; o banco passa a ter mais de 2,2 trilhões de guaranis da previdência (ABC Color).
Em março de 2026, o Ueno vira o único banco paraguaio com títulos nos mercados globais: US$ 350 milhões, com vencimento em 2031 (Reuters). Em junho, tem quase 3 milhões de clientes, cerca de 60% dos adultos do país. No mesmo mês, o Banco Central começa uma inspeção (Revista Fórum).
Em julho, o ABC Color relata que o IPS afrouxou em 2023 a matriz de avaliação dos bancos e em 2024 a exigência de classificação de risco, mudanças que, segundo o jornal, beneficiaram o Ueno. O saldo do instituto no banco, de cerca de 80 bilhões de guaranis em 2023, chegou a cerca de 2,1 trilhões em abril de 2026. Uma reclassificação pedida pela Superintendência de Aposentadorias revelou que os limites legais tinham sido ultrapassados, e o IPS anunciou a retirada do excedente (ABC Color; Revista Fórum).
Em setembro, o ABC Color começa a publicar documentos do Banco Central com preocupações sobre empréstimos do Ueno a empresas dos donos (Bloomberg Línea). Segundo uma coluna da Última Hora, os senadores Basilio Núñez, Tony Barrios e Natalicio Chase, todos da ANR, propõem, com autorização de Cartes, um pedido de informações ao Banco Central sobre as operações do Grupo Vázquez, aprovado pelo Senado (Última Hora, coluna de Estela Ruiz Díaz).
Na segunda-feira, 2 de novembro, a diretoria do Banco Central vota por unanimidade.
Às 3h24, o anúncio. O índice de solvência do Ueno tinha caído a menos da metade do mínimo legal depois de ajustes contábeis (Revista Fórum). O fundo de garantia cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante, cerca de US$ 38 mil. (Bloomberg Línea).
A Promotoria manda prender oito pessoas, entre elas Miguel Vázquez e Juan Manuel Gustale. A Justiça bloqueia US$ 70 milhões e 1,62 trilhão de guaranis de dirigentes e empresas (Agência Pública). Peña, que cancela uma viagem à Espanha, pede a renúncia de Carvallo (AP). “Minha renúncia está assinada”, diz Carvallo, “pela simples razão de que o Banco Central do Paraguai precisa de tranquilidade para fazer seu trabalho” (InvestNews, com a Bloomberg). Peña nomeia Raúl Vera Bogado.
Peña promulga uma lei para devolver a maior parte dos depósitos. Trinta e cinco deputados apresentam a acusação para levar Peña e o vice, Pedro Alliana, a julgamento político. À noite, centenas de pessoas protestam em Assunção (TV Sobrinho).
De manhã, Horacio Cartes, presidente da ANR, anuncia apoio ao julgamento. Às 10h30, a Câmara abre a sessão. Durante o debate, Peña anuncia a renúncia em vídeo no X: “Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento eu falhei” (TV Sobrinho). O ministro do Interior, Enrique Riera, leva a carta ao Congresso. Minutos depois, os 78 deputados presentes aprovam a acusação (La Estrella de Panamá). O pedido contra Alliana é rejeitado por 48 a 30 (Diario Panorama).
Às 18h55, o Senado destitui Peña por “mau desempenho de funções”, com 44 votos e uma ausência (ABC Color). Alliana jura como presidente, para completar o mandato até agosto de 2028. Ao mesmo tempo, a polícia cumpre a ordem da Promotoria: Peña fica preso em casa, em Assunção (Infobae).
Peña comparece à Promotoria. É acusado formalmente de lesão de confiança, como instigador, e de administração em proveito próprio, como autor. Segundo a imputação, no cargo, ele teria intervindo para que entidades do Estado colocassem, renovassem e mantivessem grandes somas no Ueno, banco com o qual teria “relação econômica e corporativa prévia e direta” (El Universal). Peña se abstém de declarar. O juiz Humberto Otazú decreta a prisão preventiva: “Este cidadão deve estar sob a figura da prisão preventiva para garantir sua submissão a este procedimento” (El Mostrador, com a EFE).
Não encontramos ligação direta entre os dois bancos, seus donos ou seus personagens. A comparação é da imprensa e dos especialistas ouvidos por ela.
| Ueno Bank (Paraguai) | Banco Master (Brasil) | |
|---|---|---|
| Origem | Financeira El Comercio (1976), comprada pelo Grupo Vázquez em 2021; banco em novembro de 2023. | Banco Máxima; Vorcaro sócio em 2017, controle em 2019, nome Master em 2021. |
| Como cresceu | Marca lançada em fevereiro de 2022; contas abertas pelo celular, descontos e devolução de parte do valor das compras. | CDBs com rendimento acima da média, garantidos pelo FGC. |
| Tamanho | Cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e 9,1% dos depósitos do país; cerca de 3 milhões de clientes. | R$ 86,8 bilhões em ativos, cerca de 0,55% da captação do sistema. |
| Previdência | Cerca de US$ 850 milhões em fundos públicos, com o dinheiro do IPS. | Cerca de R$ 1,8 bilhão de regimes próprios de estados e municípios. |
| O regulador | O presidente do Banco Central tinha dirigido a financeira que originou o Ueno. | Um ex-diretor de Fiscalização e um ex-chefe de Supervisão do Banco Central são investigados por prestar uma espécie de consultoria a Vorcaro. |
| A política | O presidente da República foi sócio da holding até março de 2025. | Relações com políticos e autoridades do Judiciário; sem vínculo formal com o presidente. |
| O desfecho | Intervenção em 3/11/2026; presidente destituído e preso em quatro dias. | Liquidação em 18/11/2025; Vorcaro preso em 17/11/2025 e de novo em 4/03/2026. |
Fontes da tabela: Correio Braziliense, com a BBC; A Gazeta, com a BBC; Jetss.
Para o professor Alexandre Chaia, do Insper, o Ueno se concentrou no varejo, enquanto o Master captava para comprar ativos de pouca liquidez (Jetss). Thiago Amâncio, da consultoria Control Risks, ouvido pela BBC News Brasil, resume a diferença política: as relações do Master com o poder “são importantes e muito amplas, mas são mais difusas”, e não houve “uma conexão formal” entre o presidente Lula (PT) e o banco (A Gazeta).
| Disseram | Os registros |
|---|---|
| Peña, 04/04/2025: “Eu fui investidor [...] fiz um investimento há seis anos na casa de Credi Centro, que se converteu em ueno Holding, nunca foi o banco ueno, eu não tenho nenhuma vinculação com o banco” (Última Hora). | 07/11/2026: a Promotoria acusa Peña de ter intervindo para que o Estado mantivesse dinheiro no Ueno, com o qual teria “relação econômica e corporativa prévia e direta” (El Universal). |
| Peña, 04/04/2025: acusa o ABC Color de “manipulação” (ABC Color). | As ações de 2019, a fusão de fevereiro de 2025 e a assembleia de março, publicadas pelo jornal, estão na denúncia de outubro de 2025 e na acusação de 2026 (ABC Color). |
| Gustale, presidente do Ueno, 16/10/2024: o banco “está se expandindo de maneira ordenada e caprichada”, segundo a Última Hora (Última Hora). | 03/11/2026: solvência abaixo da metade do mínimo legal e intervenção (Revista Fórum). |
| Gustale, 03/11/2026: “Sustentamos que não houve” financiamento indireto às empresas do grupo (InvestNews). | A Promotoria investiga empréstimos e saques a descoberto concedidos em 2025 e 2026 a empresas do mesmo grupo (El Economista). |
| O quê | Valor |
|---|---|
| Clientes do Ueno | cerca de 3 milhões, 60% dos adultos (jun/2026) |
| Ativos | cerca de US$ 3,75 bilhões; 9,1% dos depósitos |
| Fundos públicos no banco | US$ 800 a 850 milhões; do IPS, cerca de 2,1 trilhões de guaranis (abril de 2026) |
| Títulos internacionais | US$ 350 milhões, vencimento em 2031 |
| Garantia por depositante | 228,3 milhões de guaranis (cerca de US$ 38 mil) |
| Bloqueio judicial | US$ 70 milhões e 1,62 trilhão de guaranis |
| Participação de Peña na holding | 6,144 bilhões de guaranis, 1,58% (18/03/2025) |
| Votos | Deputados: 78 a 0 · Senado: 44 e uma ausência |
Não encontramos, nas conversas do celular de Daniel Vorcaro publicadas até agora, menção ao Ueno, ao Grupo Vázquez ou a Santiago Peña. As comparações deste livro são com fatos contados em: